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Imigração portuguesa no Brasil

Imigração portuguesa no Brasil, ou emigração portuguesa para o Brasil, é o movimento populacional de portugueses para o Brasil. Os portugueses constituíram o segundo grupo que mais povoou o Brasil, atrás apenas dos negros africanos. Durante mais de três séculos de colonização, somada à imigração pós-independência, os portugueses deixaram profundas heranças para a cultura do Brasil e também para a etnicidade do povo brasileiro. Hoje, a maioria dos brasileiros têm alguma ancestralidade portuguesa.

Histórico

Seguido ao descobrimento do Brasil, em 1500, começaram a aportar na região os primeiros colonos portugueses. Porém, foi só no século XVII que a emigração para o Brasil se tornou significativa. Acompanhando a decadência do comércio na Ásia, as atenções da Coroa Portuguesa se voltaram para o Brasil. No século XVIII, com o desenvolvimento da mineração na economia colonial, chegaram à colônia centenas de milhares de colonos. Após a independência, na primeira metade do século XIX, a emigração portuguesa ficou estagnada. Cresceu na segunda metade do século, alcançando seu ápice na primeira metade do século XX, quando chegavam ao Brasil, anualmente, 25 mil portugueses.

Imigração restrita 1500-1700

O Brasil foi descoberto pelos portugueses em 22 de abril de 1500. Logo após o fato, os colonos passaram a se estabelecer na colônia, porém, de forma pouco significativa. De início, aqui foram deixados degredados pessoas tidas como indesejáveis em Portugal, que tinham como pena o degredo no Brasil. Esses primeiros colonos foram abandonados à própria sorte e acabaram sendo acolhidos pelos grupos indígenas que viviam no litoral. Os degredados chegaram a compor de 10 a 20% da população da Bahia e Pernambuco áreas mais ricas. Em contrapartida, nas regiões periféricas, como o Maranhão, os degredados eram entre 80 e 90% da população portuguesa.

Durante os séculos XVI e XVII, a imigração de portugueses para o Brasil foi pouco significativa. A Coroa Portuguesa preferia investir na sua expansão comercial no continente asiático e pouco valorizava as suas possessões nas Américas. Porém, durante o século XVI, piratas franceses e de outras nacionalidades começaram a rondar o território brasileiro e a fazer tráfico de pau-brasil dentro das terras lusitanas. Essa situação obrigou a Coroa Portuguesa a começar efetivamente a colonização do Brasil. Os primeiros colonos portugueses começaram a chegar ao Brasil em maior número após 1530. A colônia foi dividida em capitanias hereditárias e as terras foram divididas entre nobres lusitanos. Para promover a colonização desses grandes lotes de terra, a Coroa Portuguesa passou a incentivar a ida de colonos para o Brasil, que recebiam sesmarias e tinham um prazo de tempo para desenvolver a produção.

Nesse período, vieram para o Brasil portugueses de todos os tipos: ricos fazendeiros, aventureiros, mulheres órfãs, degredados, empresários falidos e membros do clero. O foco da imigração foi a Região Nordeste do Brasil, já que as plantações de cana-de-açúcar estavam em pleno desenvolvimento. Essa imigração colonizadora ficou marcada pela masculinidade da população: as mulheres portuguesas raramente imigravam, pois na Europa o Brasil possuía a imagem de uma terra selvagem e perigosa, onde apenas os homens poderiam sobreviver. No Nordeste brasileiro nasceu uma sociedade açucareira rígida, formada pelo colono português e seus escravos africanos. Para suprir a falta de mulheres portuguesas, a Coroa Portuguesa passou a enviar para o Brasil mulheres órfãs que, ao invés de seguirem o caminho religioso, iam se casar no Brasil. Todavia, os esforços não foram suficientes e a miscigenação ocorreu em larga escala: as mulheres indígenas e africanas acabaram por substituir a falta das mulheres portuguesas.

Surge, então, o "branco da terra": filho do colono português com as índias locais. Mais tarde, surge a figura do mulato: filho do europeu com as africanas. Desembarcaram também na colônia judeus, muitos cristãos-novos e ciganos. Sob o domínio holandês centenas de judeus de Portugal e Espanha se instalaram, sobretudo, em Pernambuco, acrescentando à diversidade étnica do Brasil colonial.

Os degredados

Em Portugal, a pena do degredo era utilizada desde a Idade Média. Os condenados por algum crime podiam ser mandados para lugares mal povoados e zonas fronteiriças do País. Um destino muito visado era o Algarve. Porém, com as descobertas portuguesas a partir do século XV, muitos condenados passaram a ser mandados para a África, a Índia e para o Brasil. Os degredados eram "desajustados sociais", indesejáveis em Portugal, que eram banidos para possessões ultramarinas por um tempo determinado ou, em muitos casos, indefinidamente. A pena de degredo para o Brasil era considerada a pior penalidade que havia, apenas superada pela pena de morte. No imaginário português, havia uma dicotomia entre ora considerar o Brasil uma espécie de paraíso terrestre e ora considerá-lo o inferno na Terra. A natureza virgem da colônia contribuía para criar a imagem do paraíso terrestre, principalmente entre o clero, que chegou a ver a descoberta do Brasil como uma manifestação de Deus

Porém, os relatos sobre a colônia também já assumiam uma perspectiva negativa, alguns com descrições reais, outros fantasiosos, a medida que se propagava que o Brasil era habitado por animais selvagens, mas também por seres como monstros e dragões. Além da fauna e da flora exóticas e perigosas, a imagem dos índios também era tingida de elementos preconceituosos, uma vez que sob os olhos dos europeus eles eram "selvagens" e a prática da antropofagia entre os índios foi usada pelos europeus para denigri-los. Ademais, o degredo para o Brasil significava, além de partir para uma terra desconhecida e tida como perigosa, ter que enfrentar uma viagem oceânica torturante e a separação da família.

Com toda essa visão negativa que recaía sobre o Brasil, era natural que muitos portugueses temessem se transferir para a colônia. Povoar o Brasil e, consequentemente, estabelecer o controle português na região, foi uma tarefa muito difícil para a Coroa Portuguesa. Além do fato de que Portugal tinha uma população muito pequena, eram poucos aqueles que se atreviam a se aventurar numa terra vista como perigosa. Em virtude disso, o degredo foi usado por Portugal como uma forma de povoar a colônia. Na carta de Pero Vaz de Caminha já havia o relato de degredados que no Brasil ficaram logo após o descobrimento. Era conveniente para muitos degredados ficar no Brasil, pois penetravam a colônia e se mantinham longe da rígida justiça portuguesa. Na colônia se integravam, normalmente eram acolhidos pelos índios e se uniam a mulheres indígenas. Nas décadas seguintes, Portugal continuou mandando degredados para a colônia.

Parte da historiografia brasileira e também o senso comum costumam afirmar que Portugal mandou para o Brasil a "escória" da sociedade portuguesa: prostitutas, assassinos, ladrões. É corriqueiro afirmar que grande parte das mazelas da sociedade brasileira são fruto desse tipo de povoamento que juntou portugueses "degenerados", índios "lascivos" e africanos "libidinosos", dando origem a uma sociedade problemática. Além de ser uma afirmação falsa, essa tese está tingida de preconceitos e de uma baixa estima dos próprios brasileiros em relação aos seus antepassados.

Na realidade, os degregados eram pessoas que haviam sido condenadas pelos mais diversos crimes. Na sociedade portuguesa da Era Moderna, marcada pela religiosidade católica e por um Estado absolutista, uma enormidade de condutas eram tipificadas como crime. Porém, para os padrões atuais, essas condutas não mais tipificariam um crime. É salientável que o conceito de crime varia com o decorrer do tempo e com o contexto em que se encontra determinada sociedade. Portanto, o que poderia ser considerado um crime gravíssimo em uma sociedade pode ser uma conduta irrelevante para outra. Assim, poderiam ser condenadas ao degredo pessoas setenciadas por homicídio, roubo e fraude. Mas também poderiam receber a mesma pena mulheres que fossem pegas fazendo fofoca. A maioria dos condenados receberam a pena de degredo por terem condutas que, atualmente, seriam consideradas crimes leves ou nem ao menos seriam crime, como por pequenos furtos, promessas de casamento não cumpridas, vício em jogo, lesa-majestade, seduções, adultérios, sodomia, misticismo, judaísmo e blasfêmias, entre outros do gênero. Portanto, a maioria dos degredados não fazia parte da tal "escória" portuguesa, que muitos ainda acreditam que povoou o Brasil.

Tanto a Igreja como a Coroa Portuguesa acreditavam que, com o degredo, o condenado iria purgar sua alma por meio do trabalho. Além de ser uma forma de eliminar esses elementos indesejáveis da sociedade portuguesa e de fazê-los purgar a alma, o degredo também foi usado como um estratagema da Coroa Portuguesa de povoar o Brasil e condutas, que hoje poderiam ser tidas como irrelevantes, eram penalizadas com o exílio. Um caso ilustrativo aconteceu com um aspirante a padre de nome André Vicente que, em 1632, foi condenado a três anos de degredo no Brasil por limpar o nariz utilizando os panos do altar da igreja. Com o objetivo de povoar a colônia, sempre que um navio deixava Portugal rumo ao Brasil, havia ali uma quota de degredados.

Minorias étnicas

O Portugal quinhentista não configurava uma sociedade homogênea. Ao lado da maioria cristã, havia importantes minorias muçulmanas, judaicas e ciganas. Após a Reconquista Cristã, os mouros de Portugal já se encontravam avançadamente aculturados e a sua assimilação dentro da sociedade portuguesa aconteceu sem maiores problemas. Por outro lado, os judeus e cristão-novos e os ciganos eram etnias que frequentemente foram hostilizadas e mesmo perseguidas em Portugal. Essas duas etnias foram marginalizadas da sociedade portuguesa e muitos deles foram para o Brasil, seja de forma forçada pelo degredo ou voluntariamente.

Os judeus foram frequentemente hostilizados, proibidos de seguir sua religião e costumes e forçados a se converter ao cristianismo. Muitos deles eram acusados, por desafetos, de práticas judaizantes, ofensas à Igreja Católica e de fazer pactos demoníacos. Não era apenas a religiosidade mística, etnocêntrica e preconceituosa que levava a essa situação. Interesses econômicos também, uma vez que os judeus exerciam forte influência no comércio da Bahia e de Pernambuco. Foi apenas em 1773, por decisão do Marquês de Pombal, que se proibiu a distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos e no ano seguinte foi-se permitido o acesso de judeus e descendentes a cargos públicos e honrarias.

Quanto aos ciganos, o governo português apresentava uma dualidade: ora os forçava a ir para o Brasil, ora restringia a sua entrada na colônia, mas sempre mantendo uma atitude hostil. Também foi pela ação do Marquês de Pombal que foram proibidas as restrições contra essa etnia. De qualquer maneira, durante todo o período colonial imperaram as restrições aos judeus e ciganos, seja de caráter social ou oficial. Ambos eram vistos como diferentes e ameaçadores, numa sociedade extremamente etnocêntrica e intolerante à convivência com valores e verdades heterogêneos.

Os convertidos ou cristãos-novos

Uma população numerosa de portugueses descendentes de judeus se estabeleceu no Brasil colonial. Durante vários séculos, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram de forma pacífica na Península Ibérica. A Ibéria era um lugar único na Europa onde o hibridismo criou uma sociedade culturalmente rica. Os judeus chegaram à Península Ibérica antes do nascimento de Jesus Cristo e os islâmicos a invadiram no ano de 711, deflagrando uma maciça imigração proveniente do Norte da África, de mouros. Mesmo após os avanços da Reconquista Cristã no século XIII, a Espanha ainda tinha mais afinidade com a sociedade muçulmana do que com o resto da Europa. Mesmo os cristãos-velhos ibéricos sem ascendência judaica ou muçulmana pareciam "exóticos" aos olhos dos europeus do Norte, pois absorveram diversos aspectos tanto da cultura judaica quanto da islâmica. Os séculos de convivência entre esses povos foram quebrados no século XV e no século XVI, quando a Inquisição foi estabelecida na Espanha 1478 e em Portugal 1536. Os Reis Católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão tiveram um reinado conturbado. A Reconquista criou uma natureza militarizada da sociedade espanhola e a violência na Espanha foi exarcebada com a vitória das classes guerreiras durante esse período. Depois que os cristãos conquistaram os territórios dos mouros, várias guerras civis eclodiram na região da Espanha, ameaçando a estabilidade da monarquia. Era necessário desviar toda essa agressividade a um inimigo externo, criando um bode expiatório. Dessa forma, toda a Espanha seria unida para combater um "inimigo" único, criando uma unidade nacional tão desejada pelos Reis Católicos. Em momentos conturbados, as sociedades humanas costumam se voltar contra grupos ambíguos, tendo-os como perigosos e fazendo deles alvos de ataques. No caso espanhol, o grupo escolhido para ser atacado foi o dos judeus.

Os convertidos ou cristãos-novos eram descendentes de judeus que haviam se estabelecido na Península Ibérica há vários séculos. Muitos deles eram descendentes de judeus que haviam se convertido ao catolicismo por livre e espontânea vontade. Muitos eram cristãos devotos e irrepreensíveis. Alguns deles, porém, apesar de serem cristãos, mantinham alguns aspectos culturais judaicos no seu dia-a-dia. Formavam, portanto, um grupo ambíguo que não era visto pelos cristãos-velhos como iguais a eles, tampouco eram aceitos pelos judeus. Portanto, não foi difícil desmoralizá-los e transformá-los em alvo de agressividade. Os cristãos-novos foram os primeiros a ser perseguidos pela Inquisição. Depois de terem sido proibidos de assumir certos cargos, muitos foram julgados pela Inquisição, foram presos, torturados, tiveram seus bens confiscados e foram queimados vivos. Finalmente, em 1492, os judeus foram expulsos da Espanha e a violência da Inquisição se voltou contra os mouros, mais tarde contra os protestantes, franco-maçons, bruxas, iluministas, jansenistas, homossexuais, bígamos e qualquer grupo que desviasse dos padrões impostos pela Igreja. Os próprios católicos passaram a ser vítimas da Inquisição, pois criou-se na Península Ibérica uma sociedade "paranoica e neurótica", onde as pessoas eram vigiadas por seus vizinhos e qualquer comportamento suspeito já ensejava uma denúncia. A Inquisição foi mais uma entidade política do que religiosa, e era frequentemente usada pelas pessoas para se conseguir poder e eliminar inimigos indesejáveis.

Nesse ambiente perigoso, judeus e convertidos migraram em massa da Espanha para Portugal entre 1480 e 1496. Porém, o rei Manuel I de Portugal pretendia se casar com a filha dos Reis Católicos e, como condição para aceitar o matrimônio, o monarca espanhol pediu ao português que também expulsasse os judeus. Portanto, em 5 de dezembro de 1496, Portugal também decretou a expulsão dos judeus, dando-lhes até outubro do ano seguinte como prazo para sair. Todavia, estima-se que 10% da população portuguesa fosse judia naquela altura, e o rei não podia se dar ao luxo de perder toda aquela população e os benefícios econômicos que ela dava a Portugal. Assim, o rei impediu a saída dos judeus de Portugal e decidiu que eles deveriam ser convertidos à força ao cristianismo. Portugal, ao contrário da Espanha, nunca teve o "problema mouro" para resolver. Após a Reconquista, os islâmicos de Portugal já estavam bastante "iberizados" e foram facilmente assimilados dentro da sociedade portuguesa. Na Espanha, por sua vez, ainda havia uma grande população muçulmana não assimilada, e ela foi a próxima vítima da Inquisição espanhola. Portanto, a fúria da Inquisição portuguesa se voltou exclusivamente contra os judeus e os convertidos. Durante os séculos seguintes, muitas pessoas foram acusadas de cometer criptojudaísmo, ou seja, de praticar o judaísmo em segredo. De fato, muitos cristãos-novos, ao serem perseguidos como "judeus", apesar de muitos não praticarem mais o judaísmo e de serem católicos devotos, acabaram reacendendo o sentimento de ser judeu, dividindo membros da mesma família. Assim, houve casos de irmãos cristãos que denunciavam irmãos judeus para a Inquisição, e até mesmo de um filho cristão que denunciou a mãe judia. Os inquisidores se debruçavam sobre a árvore genealógica das pessoas para averiguar se certo indivíduo tinha algum antepassado judeu. Surgiu aí o conceito de "limpeza de sangue" que atormentou a sociedade ibérica. Muitos historiadores afirmam que o racismo moderno nasceu na Península Ibérica a partir de então, com conceitos de "sangue puro" e "sangue impuro". Houve casos de pessoas que foram queimadas por possuírem um trisavô judeu, apesar de desconhecerem tal origem. Isso deixou a sociedade em estado de paranoia, pois muitas pessoas passaram a temer que houvesse algum judeu em sua árvore genealógica.

A América Latina se tornou um destino visado por esses judeus e cristãos-novos perseguidos. Se na Península Ibérica eles foram transformados em "bodes expiatórios", no Novo Mundo havia outras vítimas a ser perseguidas: os índios e os negros. Portanto, no Continente Americano, onde a perseguição já começava a assumir um viéis racial, esses judeus e convertidos, incluídos na categoria de "brancos", encontraram um ambiente onde eles eram menos notados e onde a agressividade estava se voltando contra outras vítimas. Assim, no México, em 1550, em torno de 20% da população europeia era formada por convertidos. No Peru, a proporção era de dois convertidos para um cristão-velho. Em Porto Rico, havia reclamações de que comerciantes judeus estavam "ocupando a ilha". Em Cuba, oficiais reclamavam que costumes judaicos estavam sendo ensinados aos índios. No Brasil, o número de cristãos-novos era tão grande que, devido à ausência de outros portugueses alfabetizados, muitos deles ocupavam cargos oficiais, apesar de haver uma proibição real. Para o século XVI, estima-se que cristãos-novos compunham 14% da população "branca" em Pernambuco. Entre 1579 e 1620, 32% dos donos de engenhos de cana-de-açúcar em Pernambuco eram de origem judaica.

Pesquisadores encontraram certas peculiaridades da cultura judaica ainda sendo praticadas na Espanha, em Portugal e no Brasil em momentos recentes. São aspectos culturais praticados por pessoas que se dizem cristãs e que desconhecem qualquer vínculo com o judaísmo, o que mostra como foi grande a influência judaica, mesmo após séculos de expulsões e conversões forçadas.

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Os ciganos

Outra etnia minoritária de Portugal que se fez presente no Brasil colonial foram os ciganos. Desde o século XVI muitos ciganos foram degredados para o Brasil. Inicialmente, pessoas de etnia cigana foram degredadas ao Brasil por crimes que cometiam em Portugal, sobretudo furto. Mais tarde, eles passaram a ser mandados para o Brasil pelo simples fato de serem dessa etnia. Os ciganos eram indesejáveis em Portugal, e a Coroa os degredava para a colônia para diminuir sua presença indesejável na Metrópole e transferir seu problema de integração para lá. Em 1755, o grande número de ciganos em Salvador já preocupava e causava incômodo nos oficiais da Câmara. Embora muitos defendessem a expulsão dessas pessoas da região, a decisão tomada foi de “separar de tal forma as famílias de ciganos, que não pudessem mais produzir uma geração inútil, mal educada e perniciosíssima”, nas palavras do procurador da Fazenda de Salvador à época. A intenção era de separar os jovens dos adultos e mandar os de pouca idade para regiões afastadas, onde pudessem contrair matrimônios mistos. Os ciganos já casados deveriam ser mandados para Angola.

Os ciganos costumavam se concentrar em “ranchos”, e a política da época consistia em tentar dispersá-los. No século XVIII, havia ciganos espalhados por todo o Brasil. Em todos os lugares eram frequentemente acusados dos mesmos crimes: roubo de cavalos e de escravos. Quanto às mulheres, surgem na documentação da Inquisição sobretudo como adivinhadoras. Tendiam a contrair matrimônio somente com outros ciganos e com parentes colaterais, raramente tendo filhos ilegítimos, naturais ou adulterinos. Muitos ciganos trabalhavam como vendedores, outros eram senhores de escravos ou se ocupavam no tráfico de escravos.

Imigração de transição 1700-1850

A partir do século XVIII, a imigração portuguesa no Brasil alcança cifras jamais vistas até então. Os fatores para esse crescimento imigratório foram a descoberta de ouro nas Minas Gerais, o aprimoramento dos meios de transporte aquáticos e o fluxo de colonos açorianos para o Sul. No início do século XVIII, a exploração das minas de ouro tornou-se a principal economia da colônia. O desenvolvimento e riqueza trazidos pelo ouro atraíram para o Brasil um grande contingente de colonos portugueses em busca de riqueza. Nessa época, surge o mineiro, que era o colono português que enriqueceu no Brasil graças ao ouro e as pedras preciosas.

A corrida do ouro

O surto urbano que se deu na colônia graças à mineração fez crescer as ofertas de emprego para os portugueses. Antes, os colonos eram quase que exclusivamente rurais, dedicando-se ao cultivo da cana-de-açúcar, mas agora surgiriam profissões como de pequenos comerciantes.

A maior parte da imigração foi de pessoas originárias do Minho. De início, a Coroa Portuguesa incentivou a ida de minhotos pobres para o Brasil, onde se fixaram principalmente na região de Minas Gerais e na Região Centro-Oeste do Brasil, onde foram encontradas minas de ouro.

Porém, a imigração tomou proporções altíssimas, e a Coroa passou a controlar a ida de portugueses para o Brasil.

"Viu-se em breve tempo transplantado meio Portugal a este empório", nas palavras de Simão Ferreira Machado em Triunfo Eucarístico, livro publicado em Lisboa em 1734.

Pela vinda em larga escala de colonos, a língua portuguesa tornou-se dominante no Brasil em meados do século XVIII, em substituição ao tupi-guarani, ou língua geral

A notícia de que ouro havia sido achado correu a colônia. Em pouco tempo, legiões de pessoas de diferentes partes da colônia abandonaram suas terras e partiram para a região mineradora. A notícia também atravessou o Atlântico e chegou a Portugal. Em pouco tempo, milhares de portugueses atravessaram o oceano em busca de fortuna no Brasil. O surto migratório que se deu de portugueses do Minho em direção às áreas mineradoras da colônia foi tão intenso que Portugal teve que baixar três leis proibindo a migração de pessoas do Noroeste português para o Brasil, nos anos de 1709, 1711 e 1720. Em relação à lei editada em 1720, autoridades portugueses afirmaram: "Tendo sido o mais povoado, o Minho hoje é um estado no qual não há pessoas suficientes para cultivar a terra ou prover para os habitantes". A corrida do ouro praticamente despovoou vilas inteiras da região do Douro e de Trás-os-Montes. Em 1703, o embaixador francês em Lisboa informava ao Rei Luís XIV que "O grande número de pessoas que vai à procura do ouro faz com que reste menos pessoas para trabalhar no cultivo da terra". Milhares de portugueses venderam tudo o que tinham para conseguir comprar uma vaga em algum navio que partia para o Brasil. Funcionários da Coroa e comerciantes radicados na África e na Ásia abandonaram seus empregos e rumaram para o Brasil. Nesse período vieram pessoas de todos os estratos sociais para o Brasil. Portugueses miseráveis que viram essa como sendo a oportunidade de mudar de vida, pessoas perseguidas pela justiça e pela Inquisição, assim como fidalgos a procura de fortuna e aventura. A maioria deles não tinha parentes ou amigos na colônia, tampouco recurso financeiro. Até 1693, Minas Gerais tinha uma população não indígena quase inexistente. Dezesseis anos depois, a população de brancos, mestiços e negros envolvidos na mineração já chegava a 30 mil pessoas. Só de Portugal, nesse período, saía uma média de oito a dez mil pessoas por ano em direção ao Brasil, totalizando aproximadamente 600 mil pessoas no decorrer de sessenta anos. Nunca antes na História da colônia houve uma migração tão maciça.

Os colonos enfrentavam uma média de oitenta a noventa dias de viagem pelo oceano, até chegar a Salvador ou a outra cidade costeira. De lá, tinham que penetrar o interior do Brasil até conseguir chegar à região mineradora. O caminho até as minas era dificílimo de ser transposto. Muitos morriam pelo caminho, de fome, de doença, devorados por alguma fera ou envenenados por animais peçonhentos. Aqueles que conseguiram chegar até as minas só se preocupavam em extrair o ouro e fazer fortuna o mais rápido possível. Em decorrência, no período de 1697-1698 e 1700-1701 não havia disponibilidade de comida na região. Os mantimentos que vinham de outras regiões da colônia não eram suficientes para abastecer aquela crescente população. Assim, um boi que valia 10 gramas de ouro na Bahia passou a valer 359 gramas na região mineradora. Um alqueire de milho equivalente a 36 litros que em São Paulo custava 1,5 grama de ouro, nas minas custava 143 gramas. Um pedaço de queijo ou uma galinha tinham preço equivalente a 25 dias de trabalho. Desta forma, muitas pessoas se viam cercadas de ouro, mas simplesmente não tinham o que comer e acabavam morrendo de fome. O caos foi instalado e pessoas se matavam umas às outras por um pedaço de comida. Com o passar dos anos, o cultivo de alimentos foi estabelecido e a onda de fome foi superada. Mas além da fome, os aventureiros tiveram que enfrentar epidemias de varíola e ataques de bandidos. Mais tarde, cresceu a animosidade entre os paulistas descobridores das minas e os forasteiros, a maioria deles portugueses, que brigavam pelo controle das lavras. Muitos conflitos daí se originaram mas, por fim, os forasteiros acabaram vitoriosos e muitos paulistas foram expulsos da região mineradora.

Durante esse período, cerca de mil toneladas de ouro foram retiradas da região mineradora, sendo que do total, 800 toneladas foram encaminhadas para a Europa. A exploração de pedras preciosas na colônia sustentou Portugal por um longo período. A Coroa portuguesa gastou grande parte do ouro brasileiro para viabilizar seu modo de vida luxuoso e pomposo. O ouro brasileiro também serviu para reconstruir Lisboa após o sismo de 1755. Mas pouco dele ficou em Portugal. A maior parte teve como destino final a Inglaterra, pois Portugal dependia financeiramente dos ingleses. O ouro brasileiro ajudou o nascente capitalismo europeu, pulverizando-se por toda a Europa: só a França utilizou, no século XVIII, 86 toneladas do ouro brasileiro para cunhar moedas.

A corrida do ouro também teve efeitos decisivos para o Brasil. De apenas 300 mil habitantes, a colônia saltou para uma população de 3,6 milhões de pessoas em apenas cem anos, graças ao afluxo de colonos portugueses e escravos africanos. O interior do Brasil foi povoado graças a esse fenômeno.

A imigração de portugueses do Norte para Minas Gerais influenciou profundamente as características sociais daquela capitania, como escreveu o historiador Kenneth Maxwell: "entre a minoria branca de Minas Gerais predominavam os valores e costumes das províncias do norte português, especialmente do Minho, Trás-os-Montes, Porto, Douro e as Beiras. Os colonos transplantaram para a região mineradora "um conjunto particular de valores sociais e culturais que, no ambiente social e cultural mineiro, apesar das diferenças superficiais, era muito semelhante ao que haviam deixado para trás". O Norte de Portugal era uma região com características sócio-econômicas que o distanciavam das outras regiões portuguesas. No Norte de Portugal havia a predominância de mulheres entre a população e uma grande porcentagem de casas chefiadas por mulheres, o mesmo acontecia em Minas Gerais. No caso português, as mulheres predominavam pois muitos homens emigravam para outras regiões do reino ou para as colônias, sobretudo para o Brasil, deixando as mulheres para trás, que ficavam incubidas muitas vezes de gerir o lar. Em Minas Gerais, embora nas primeiras décadas de exploração mineradora houve uma verdadeira escassez de mulheres, no final do século XVIII elas já compunham a maioria da população livre mineira, a maioria delas ex-escravas, de acordo com Donald Ramos com base em alguns testamentos por ele examinados, sendo em número bastante superior às portuguesas entre a população livre mineira, pois estas raramente emigravam.Curiosamente, as poucas portuguesas cujos matrimônios foram registrados na Paróquia de Antonio Dias, em Minas, eram sobretudo açorianas, e não nortenhas como a maioria dos homens. Em 1807, o escritor Ramalho Ortigão registrou que "Os Açores são a parte do país que exporta maior número de mulheres".

Tanto o Norte português quanto Minas Gerais apresentavam "predominância demográfica de mulheres livres, uma grande proporção de famílias chefiadas por mulheres, baixas taxas de casamento, idade de se casar mais tardia que o esperado, uma tendência entre as mulheres solteiras de estabelecerem em domicílios independentes, altas taxas de ilegitimidade e abandono infantil e baixas proporções de famílias nucleares sacramentadas pelo matrimônio". Essas características aproximavam a capitania de Minas Gerais do Norte de Portugal que, por sua vez, se distanciava do resto do país. Como observou o historiador Antônio Augusto de Lima Júnior, "ao contrário do que se verificou em outras partes do Brasil, nas Minas Gerais se constatou o fenômeno de uma integral transplantação do espírito e da civilização portuguesa” pois, apesar da miscigenação generalizada entre homens portugueses e mulheres africanas que se deu na capitania mineira, os mestiços acabavam adotando a língua, os costumes, a religião e a mentalidade do pai português.

A

Colonização açoriana e madeirense

Outro fator importante na imigração portuguesa durante o século XVIII foi a imigração açoriana e madeirense para a Região Sul do Brasil. Essa imigração de portugueses das ilhas para o litoral sulista foi bem menos significativa numericamente do que a migração de minhotos e outros portugueses do Norte para a região mineradora. Todavia, o impacto demográfico que esses colonos das ilhas tiveram no litoral do Sul do Brasil foi enorme. Entre 1748 e 1756, cerca de 6 mil ilhéus chegaram ao litoral de Santa Catarina, sendo que a população local era de apenas 5 mil pessoas. Santa Catarina recebeu 4.612 pessoas em 1748, 1.666 em 1749, 860 em 1750 e 679 em 1753. Outros tantos rumaram para o Rio Grande do Sul. Esses colonos portugueses se fixaram ao longo do litoral, onde fundaram pequenas vilas e lugarejos, vivendo da produção de trigo e da pesca.

Essa imigração promovida pela Coroa foi uma estratégia de ocupação do Sul da colônia, visando expandir o território para além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas. Mas, ao contrário do esperado, esses colonos não penetratam o interior, e acabaram por se fixar ao longo do litoral. Diferente dos outros portugueses no resto da colônia, que estavam engajados na produção voltada para o comércio exterior, os ilhéus desenvolveram uma produção agrícola em regime de pequenas propriedades, com o uso de mão-de-obra familiar.

Para convencer esses ilhéus a imigrarem para o Brasil, o governo português ofereceu, principalmente para casais açorianos e para um número menor de madeirenses, diversas regalias: glebas de terras demarcadas como propriedade para cada casal e, quando chegassem às terras, receberiam mantimentos, espingarda e munição, instrumentos de trabalho, sementes para cultivo, duas vacas e uma égua e sustento alimentar para o primeiro ano. Tanto os Açores como a Madeira eram regiões paupérrimas de Portugal, onde a população vivia afundada na miséria. Em 1751, o governador Manuel Saldanha da Gama escreve: "Nalguns portos da Ilha, o povo só se alimentava de raízes, flor de giesta e frutos". Portanto, a transferência para o Brasil com tantas regalias pareceu uma oportunidade tentadora e irrecusável. Porém, do ponto de vista econômico, a colonização açoriana foi um fracasso. Isolados em pequenos nichos populacionais ao longo do litoral, completamente despreparados para desenvolver o trabalho agrícola em terra desconhecida e sem mercado consumidor para seus produtos, só restou aos ilhéus desenvolver uma lavoura de subsistência. Aprenderam os usos da terra com as populações que já viviam na região antes de sua chegada, ajustando-se a um modo de vida mais indígena que açoriano, substituindo sua alimentação original por alimentos nativos, como a mandioca. Atualmente, é difícil distinguir peculiaridades dos Açores nessas regiões de colonização açoriana. Seu modo de vida é essencialmente o mesmo das populações caipiras encontradas em outras regiões do Brasil. Mesmo o artesanato da região é essencialmente o mesmo do encontrado em outras partes do País.

Os descendentes desses açorianos e madeirenses radicados na Ilha de Santa Catarina permaneceram por quase dois séculos de certa forma isolados do que acontecia no resto do Brasil, vivendo basicamente da agricultura de subsistência. Só a partir da década de 1970 que estradas foram abertas e asfaltadas, interligando essas vilas, que atualmente é uma região turística.

Ainda hoje, devido à influência açoriana, o jeito de falar das pessoas da região de Florianópolis é bastante peculiar quando comparado aos outros brasileiros.

Transferência da corte portuguesa para o Brasil 

No início do século XIX, em decorrência da invasão das tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte, transferiram-se para o Estado do Brasil, uma colônia do Império Português, a família real e a maioria da nobreza portuguesa. A maioria dos nobres e demais servos aproximadamente 15 mil pessoas fixaram-se na cidade do Rio de Janeiro, entre 1808 e 1822.

Os portugueses na sociedade colonial

O colono português reproduziu no Brasil a sociedade estamental da qual provinha, mas adaptando-se às novas condições. Para a colônia trouxe seus valores, sua organização jurídica hierarquizada, suas regras familiares, patrimoniais e obrigacionais. No Brasil havia a sensação da liberdade oferecida pelo Novo Mundo, onde as estratificações sociais seriam mais frouxas, a mobilidade mais fácil e a presença do Estado mais tênue. Ao mesmo tempo, havia a moralidade repressora do catolicismo ibérico. Para Gilberto Freyre, o português se adaptou facilmente aos trópicos devido à dualidade de ser Portugal um país "bicontinental" entre a Europa e a África, somada à influência muçulmana, que o teria tornado mais propenso à miscigenação. Essa explicação estava moldada de subjetivismo, pois o fenômeno da miscigenação nas colônias não era algo exclusivo dos portugueses, mas de todos os colonizadores europeus de modo geral ao se defrontarem com a escassez de mulheres brancas. Na África do Sul os colonos ingleses também geraram uma ampla população mestiça coloured, uma vez inicialmente escassa a presença de mulheres europeias, mesmo ausentes qualquer influência muçulmana na sua cultura ou uma suposta "bipolaridade" continental inglesa.  A adaptação do português na colônia e seu processo de miscigenação se deve ao caráter aventureiro de uma migração a um lugar remoto e desconhecido o que desestimulava a migração familiar, a ambição do enriquecimento rápido e o consequente retorno a Portugal e, como consequência, a escassez de mulheres portuguesas na colônia.

Os portugueses ocupavam o topo da pirâmide social no período colonial. Ser nascido em Portugal era a norma no século XVI e XVII da elite, mas não algo obrigatório. Mais do que ser português nato, era necessário comprovar a "pureza de sangue" ausência de antepassados judeus, mouros, índios e negros, até certo número de gerações, além de estudos em Portugal, geralmente na Universidade de Coimbra. A "nobreza" colonial era composta pelos senhores de engenho e pelos "homens bons" das câmaras municipais. No segmento superior da sociedade figuravam os proprietários rurais, os grandes comerciantes do litoral, os mineradores enriquecidos e a alta burocracia. Os proprietários rurais eram os senhores de engenho, proprietários de fazendas canavieiras, pecuaristas nordestinos e gaúchos, latifundiários que se autoproclamavam a "nobreza da terra", sobretudo os primeiros. Os grandes comerciantes do litoral, discriminados pela aristocracia da terra, eram quase sempre impedidos de exercer cargos públicos, só adquirindo um status elevado após o período pombalino em Portugal. No século XVIII surgiu o novo grupo social, composto pelos mineradores de ouro e diamantes, responsáveis pela edificação das cidades barrocas de Minas Gerais. Por fim, a alta burocracia colonial, composta de administradores governadores, secretários, juízes, ouvidores, desembargadores, militares graduados, técnicos fazendários e autoridades eclesiáticas, como bispos e arcebispos.

Também havia portugueses no setor intermediário da sociedade colonial. Esse setor não chegava a compor uma classe média, como nos países de economia industrial, mas uma classe heterogênea que conseguia escapar da dicotomia "senhor-escravo". Na região açucareira, era composta pelos lavradores de cana menos abastados e os assalariados do engenho. Nas regiões pecuaristas, os vaqueiros que conseguiam criar gado suficiente para estabelecer a sua própria criação. Em São Vicente São Paulo, o pequeno proprietário que, no contexto da pobreza daquela região, possuía alguns recursos e se infiltrava até mesmo dentro da aristocracia local. Sem dúvida foi a região mineradora a que mais propiciou o crescimento desse setor intermediário, uma vez que o caráter urbano daquela sociedade aumentava as oportunidades, como para comerciantes e tropeiros.

Na base da pirâmide social estavam os homens livres pobres brancos, mamelucos, mulatos, libertos, os indígenas e os escravos negros e índios. Dentro desse grupo estavam os vaqueiros das áreas pecuaristas ao longo do rio São Francisco, partes do Nordeste e do Sul, que exerciam sobretudo a lavoura de subsistência. Também poderiam estar numa área de semimarginalidade: prostitutas, vadios, capangas e marginais propriamente ditos. O grupo mais numeroso era dos escravos, tanto africanos como indígenas, dos quais a sociedade era extremamente dependente. O jesuíta André João Antonil escreveu que os escravos eram "os pés e mãos dos senhores de engenho", frase esta que poderia ser estendida aos outros setores da economia. Havia um grande desprestígio pelo trabalho manual e uma generalizada visão do escravo como um objeto, fazendo com que as pessoas, assim que conseguissem juntar algum dinheiro, adquirissem um escravo. O prestígio social era medido pelo número de escravos que determinada pessoa tinha.

Após a independência, paulatinamente foi crescendo a migração de portugueses pobres para o Brasil, passando a dominar a fonte de saídas a partir do final do século XIX e no século XX. Esses imigrantes portugueses vinham para substituir os ex-escravos nos seus antigos ofícios, sobretudo após 1850, quando o tráfico de escravos foi abolido no Brasil.

A

Imigração após a Independência

Com a decadência da mineração, no final do século XVIII, a imigração portuguesa teve uma queda, mas voltou a crescer no início do século XIX com a vinda da monarquia portuguesa.

Após a independência do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1822, e a consequente proclamação do Império do Brasil, os portugueses residentes no novo país foram considerados brasileiros originários, ou seja, não teriam que se naturalizar, já que nunca haviam sido estrangeiros no Brasil. Esse dispositivo constou da constituição do Império do Brasil de 1824, mas havia sido proposto e aceito pela Assembleia Constituinte de 1823, antes de sua dissolução pelo imperador Dom Pedro I

Mesmo durante as crises de antilusitanismo que ocorreram em diversos momentos e regiões do país após a Independência, os portugueses nunca deixaram de aportar no Brasil como imigrantes. Com o fim do tráfico de escravos em 1850, acentuou-se a carência de mão-de-obra, principalmente na região centro-sul províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde se verificava a expansão das plantações de café. O governo brasileiro começou um processo de substituição da mão-de-obra escrava pelo trabalho assalariado de imigrantes europeus.

A partir da metade do século XIX, a imigração portuguesa no Brasil tomou caráter quase que exclusivamente urbano. O perfil do imigrante português também se alterou: antes, a maioria era composta por homens solteiros. A partir do final do século XIX, as mulheres portuguesas também chegaram ao Brasil em número expressivo. As crianças menores de 14 anos eram 20% dos imigrantes. A situação econômica também se alterou. Na época colonial, alguns portugueses ricos e até nobres migraram ao Brasil embora a maioria fosse de camponeses desprovidos de recursos. No final do século XIX, os que chegaram eram extremamente pobres e sem escolaridade, vindos de aldeias do interior de Portugal.

As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo receberam a maioria desses imigrantes de Portugal. Uma expressiva parcela dessa população era oriunda de regiões interioranas do norte de Portugal, notadamente entre Beira Alta e Alto Trás-os-Montes e eram, em sua maioria, extremamente pobres, majoritariamente homens sozinhos, embora grupos familiares com grande número de mulheres e crianças não fossem raros. Ao chegarem ao Brasil, procuravam parentes ou se instalavam em pequenos cortiços. A maior parte desses imigrantes se dedicou ao comércio: pequenas vendas e padarias, chegando ao ponto de dominarem essas duas atividades em várias regiões do Brasil. Outros, tornaram-se operários nas nascentes indústrias brasileiras.

Os imigrantes portugueses figuravam no estrato mais baixo da sociedade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, ao lado de negros e mulatos. Os portugueses e os negros habitavam o mesmo espaço geográfico, frequentemente dividindo o mesmo cortiço e compartilhavam da vivência na cidade. Havia uma proximidade social, econômica e até cultural entre os dois grupos. O processo de abolição da escravatura no Brasil e a consequente falta de mão-de-obra compeliu o governo da época a estimular a vinda de imigrantes europeus, que frequentemente enfrentavam, no Brasil, situação semelhante de degradação social como aquela enfrentada pelos escravos. No caso da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, ela se intensificou quando o tráfico negreiro ainda estava em pleno funcionamento. Tratava-se, sobretudo, de uma imigração de jovens açorianos com idade entre 13 e 17 anos a mesma média de idade dos escravos trazidos da África. Na época, havia denúncias de que os navios negreiros também eram usados para trazer esses jovens portugueses para o Brasil, que eram chamados de engajados. Os jovens assinavam um contrato com o capitão do navio no qual, em troca da passagem de navio, se comprometiam a trabalhar para algum senhor no Brasil. O capitão do navio vendia o passe desses portugueses para o senhor, no valor da passagem e, ao pagar, o último adquiria esse trabalhador. Os engajados tinham que pagar a soma do valor da passagem através de trabalho gratuito, cujo tempo era estipulado pelo próprio senhor, muitas vezes chegando a três ou cinco anos. Os imigrantes que se evadissem das terras antes do término do contrato eram tidos como "fugidos". Todas essas características aproximavam os imigrantes portugueses da condição social dos escravos no Brasil.

As péssimas condições a que eram submetidos esses imigrantes portugueses no Brasil se refletiam nas estatísticas. Entre 1850 e 1872, a maioria dos adolescentes portugueses que desembarcavam no Rio de Janeiro morriam três anos após a chegada ao Brasil, vítimas de febre amarela, das más condições de moradia e das jornadas exaustivas de trabalho. Era a denominada "escravidão branca", denunciada pela imprensa da época. A maioria dos imigrantes portugueses na cidade eram adolescentes e jovens do sexo masculino, analfabetos, oriundos de zonas rurais de Portugal, completamente despreparados para enfrentar a vida numa metrópole do porte do Rio de Janeiro. Os portugueses habitavam as zonas mais precárias da cidade, tanto que no censo realizado em 1856, 51,9% dos moradores de cortiços da Corte eram de nacionalidade portuguesa. Os portugueses competiam com a população negra pelo mercado de trabalho. De fato, estavam inseridos num processo de substituição da mão-de-obra escrava, em um momento em que ela se tornava cada vez mais escassa e cara. Quintandeiro, condutor de bonde, carregador, vendedor de doces, ocupações estas antes associadas ao trabalho escravo, passaram a ser exercidas pelos portugueses na virada do século XIX. Em um ambiente de pobreza e despreparo, os portugueses despontavam como a nacionalidade que mais praticava crimes na cidade do Rio de Janeiro, superando inclusive os próprios brasileiros no período de 1859 a 1864, com destaque para os roubos, assaltos, arrombamentos etc. Já entre 1915 e 1918, 32% dos homens condenados por crimes na cidade eram portugueses, número alto, haja vista que somente 15% da população do Rio era portuguesa. Todavia, a inserção de imigrantes europeus no mundo do crime no Brasil não era fato exclusivo dos portugueses. Em São Paulo, no mesmo período, os italianos eram a nacionalidade que mais praticava crimes.

No Rio de Janeiro, o imigrante português não distoava do resto da população, do ponto de vista educacional, social ou econômico. Em 1906, 48% dos habitantes do Rio eram analfabetos, e 44,3% dos imigrantes portugueses também o eram. Deu-se, portanto, rapidamente a assimilação do elemento luso no Rio de Janeiro, sobretudo dentro das camadas mais humildes da sociedade. Embora mantivessem sentimento de solidariedade, por meio da criação de associações portuguesas, isso nunca obstou o processo de assimilação dos portugueses no ambiente social brasileiro. Tampouco os sentimentos de antilusitanismo e xenofobia que às vezes emergiam contra os portugueses no Brasil, por meio de estereótipos negativos que lhes eram imputados.

Porém, não era só na pobreza que viviam os imigrantes portugueses no Brasil. Havia uma antiga e bem-sucedida comunidade de trabalhadores especializados oriundos de Portugal, que se dedicavam especialmente ao comércio. Estes imigrantes passaram a dominar o comércio retalhista de todas as grandes cidades brasileiras. Assim, uma pesquisa sobre estabelecimentos comerciais no Brasil em 1856-1857 mostrou que os brasileiros eram proprietários de apenas 44% dos estabelecimentos, e os portugueses de 35%.

Apesar de todos os problemas socio-econômicos enfrentados pelos imigrantes, o Brasil continuava a ser a terra de destino preferencial dos portugueses mesmo após a independência. Embora existissem destinos imigratórios mais tentadores, como os Estados Unidos e a Argentina, que ofereciam melhores salários e melhores condições de trabalho do que o Brasil, foi para este último que o fluxo migratório lusitano se concentrou. Por falarem a mesma língua, pelos laços históricos e por oferecer salários mais elevados e melhores perspectivas econômicas do que Portugal, além de já haver uma comunidade comercial lusa bem estabelecida. Assim, dos 1.306.501 portugueses que emigraram entre 1855 e 1914, 78% eram originários do continente. Deste total, 82% foram para o Brasil, 2% para a Argentina e 15% para os Estados Unidos. O ápice se deu entre 1891 e 1911, quando o Brasil atraiu 93% dos portugueses que emigraram. Para concorrer com a Argentina e os Estados Unidos, o Brasil inovava ao oferecer o pagamento da passagem de navio dos europeus. Embora os portugueses também se beneficiassem dessa imigração subsidiada pelo governo brasileiro, a maioria dos portugueses imigravam para o Brasil por conta própria, sem esse auxílio governamental, ao contrário dos italianos, por exemplo. O Brasil foi o principal destino da emigração portuguesa até a década de 1960, quando outros países europeus, em especial a França, passaram a ser destinos preferenciais.

A

O mineiro e o brasileiro

Nos séculos XVIII e XIX, o Brasil exerceu verdadeiro fascínio sobre os portugueses. O Brasil tinha a imagem de ser o "eldorado", a terra onde era fácil uma pessoa enriquecer. Grande parte dessa ideia se deve à ação dos mineiros e dos brasileiros em Portugal. O mineiro, no século XVIII, era o português que emigrava para as regiões mineradores de Minas Gerais, fazia fortuna e depois voltava rico para Portugal. O brasileiro de torna-viagem ou, simplesmente, brasileiro, por sua vez, era o português que emigrava para o Brasil no século XIX e voltava enriquecido. As figuras do mineiro e depois do brasileiro faziam parte do imaginário português e foram amplamente retratados na literatura do País. A emigração em massa de portugueses que se deu, no século XVIII, para as regiões mineradoras da colônia e, mais tarde, na virada do século XIX para o XX, em direção ao Rio de Janeiro e a São Paulo se deve, em larga escala, a esse fascínio que os ex-emigrantes criavam na população.

A maioria dos brasileiros não eram pobres antes de emigrar para o Brasil. Os portugueses que emigraram para o Brasil até as últimas décadas do século XIX não estavam entre os indivíduos das camadas mais pobres da população portuguesa. Emigrar para o Brasil exigia dispender uma grande quantia de dinheiro, com passaporte, passagem de navio e fiança militar. Portanto, tratava-se de uma migração mais "seletiva", de indivíduos provenientes de famílias que tinham recursos para financiar uma viagem daquele porte. Esses imigrantes mais privilegiados é que tinham melhores condições de fazer fortuna no Brasil e eram sobretudo estes que regressavam ricos para Portugal, aguçando o imaginário popular. Muitas vezes gostavam de mostrar sua riqueza, exibindo sua opulência pelas ruas das cidades. Construíam grandes casas, algumas ainda podem ser vistas atualmente no Norte de Portugal, muitas vezes com tom de verde e amarelo, as cores do Brasil. Porém, a partir das últimas décadas do século XIX e no início do século XX, o perfil do imigrante português mudou completamente. Os pobres passaram a emigrar em massa para o Brasil, sem preparo e instrução, muitas vezes beneficiados por uma imigração subsidiada pelo governo brasileiro. Estes imigrantes chegavam pobres e, quase sempre, permaneciam pobres, engrossando a população de miseráveis no Brasil e procurando ajuda de instituições de caridade para sobreviver.

Não é exagero dizer que grande parte das transformações econômicos que teve Portugal no final do século XIX e início do século XX se devem graças à contribuição econômica desses "novos ricos" retornados do Brasil. Além de admiração, os brasileiros também causavam sentimentos de repulsa, pois alguns o acusavam de voltarem ricos, mas de continuarem ignorantes.

A imagem que os brasileiros causavam na população portuguesa servia para mascarar a realidade que a maioria dos imigrantes portugueses enfrentavam no Brasil. Desde o século XVIII, era comum que os pais portugueses enviassem algum de seus filhos para o Brasil com o objetivo de fazer fortuna e voltar para Portugal, estimulados pela presença dos ex-emigrantes que voltavam ricos. Porém, apenas aqueles imigrantes que haviam conseguido se enriquecer faziam questão de destacar a sua vitória e esbanjar a sua opulência. Os imigrantes que haviam fracassado, por sua vez, tratavam de esconder o seu insucesso. Envergonhados de retornarem pobres, deixavam-se ficar no Brasil e muitas vezes nunca mais voltavam para Portugal. Portanto, no imaginário coletivo português, permaneceu apenas a imagem do imigrante vitorioso, enquanto que o imigrante "perdedor" era ignorado. Isso explica o fato de que, embora muitos imigrantes portugueses no Brasil vivessem na pobreza, a imagem de que o Brasil era o eldorado ainda vigorou por muito tempo no imaginário dos portugueses por meio da ação dos brasileiros de torna-viagem.

Privilégios, lusofobia e estereótipos

A imigração portuguesa para o Brasil após a independência apresentou uma dualidade. Ao mesmo tempo que a lei brasileira concedia privilégios jurídicos e políticos aos portugueses, eles também enfrentaram violentas perseguições e agressividade por parte dos brasileiros. Na Assembleia Constituinte de 1823, os portugueses residentes no Brasil não foram considerados estrangeiros, desde que concordassem com a independência. Na Era Vargas, o privilégio concedido aos portugueses se evidenciou. A Constituição de 1934 limitou a entrada de estrangeiros de todas as nacionalidades no Brasil, mas em 1938 essa lei foi suspensa apenas para os portugueses. Durante a II Guerra Mundial, o então presidente Getúlio Vargas ordenou que as embaixadas brasileiras na Europa não concedem visto para os judeus, ao mesmo tempo que ele incentivava a entrada livre de portugueses no Brasil, para "garantir o fortalecimento étnico da nação". Após a Guerra, o antropólogo Gilberto Freyre e um grupo de deputados defenderam que os portugueses não deveriam ser considerados estrangeiros no Brasil. Ainda hoje, os portugueses têm tratamento especial dado pela legislação brasileira. A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 12, parágrafo 1º, reza que "Aos portugueses com residência permanente no País, se houver reciprocidade em favor dos brasileiros, serão atribuídos os direitos inerentes ao brasileiro, salvo os casos previstos nesta Constituição". Este dispositivo que dá privilégios a uma nacionalidade estrangeira é fato raro no mundo. Por exemplo, na legislação da Argentina não existe nenhum dispositivo que dê tratamento diferenciado aos espanhóis, tampouco a lei dos Estados Unidos beneficia os ingleses. Na América do Sul, apenas na Venezuela há algo semelhante.

Todavia, o tratamento privilegiado que a legislação brasileira deu e ainda dá aos portugueses não necessariamente se refletia no tratamento que os imigrantes receberam do povo brasileiro. A lusofobia e o antilusitanismo estiveram presentes no Brasil mesmo após a independência. Em alguns momentos esses sentimentos explodiram e desencadearam em verdadeira violência. Após a independência, os imigrantes portugueses passaram a ser vistos como representantes da dominação colonial. "Os portugueses eram identificados como colonizadores, exploradores, que abusavam dos preços e estavam ligados ao ódio racial". Em 30 de maio de 1834, em um episódio conhecido como "A Rusga", entre 200 e 300 portugueses foram assassinados em diversas cidades da então província do Mato Grosso. No Rio de Janeiro, ataques a portugueses aconteciam com certa frequência no início do século XX. Ataques contra portugueses continuaram a ser registrados no Brasil até o fim da década de 1920.

Se para a legislação brasileira os portugueses eram considerados praticamente como sendo "brasileiros", eles eram vistos como "estrangeiros" pelo povo brasileiro. Por muito tempo, os portugueses foram os únicos imigrantes a chegar em número significativo ao Brasil, e ser estrangeiro era quase que sinônimo de ser português. A lusofobia era fomentada, em grande parte, pela posição de destaque que os lusitanos continuaram a ocupar no Brasil, mesmo após a independência. Os portugueses concentravam-se nas cidades e grandes centros urbanos, ao contrário de outros imigrantes que tendiam a ficar no campo. Muitos portugueses eram proprietários de imóveis e pensões e dominavam o comércio varejista no Brasil. Em consequência, tinham contato direto com o público e eram vistos com desconfiança pela população. Eram acusados de abusar dos preços, de cobrar aluguéis a preços exorbitantes, de vender seus produtos a preço acima do valor de mercado, sempre suspeitos de estarem pondo água no leite, areia no pão e práticas menos honestas. A lusofobia no Brasil era um reflexo dessa suposta "exploração econômica" que os imigrantes portugueses exerciam sobre os brasileiros. Para muitos brasileiros, era inaceitável que os antigos colonizadores do Brasil continuassem a dominar diversos setores da economia brasileira.

Ademais, muitos portugueses tinham participação no movimento operário e no anarquismo sindical, contribuindo para aumentar a intolerância. No final do século XIX, o movimento republicano dos jacobinos ganhou força no Brasil e era fortemente marcado pelo antilusitanismo, apontando a colonização portuguesa e a comunidade portuguesa como sendo culpadas pelo atraso do Brasil. A imprensa brasileira, principalmente do Rio de Janeiro, contribuía para difundir estereótipos negativos sobre a comunidade portuguesa. O jornal O Jacobino, que circulou no Rio no início do século XX, era abertamente lusófobo. Os portugueses eram acusados de serem culpados por todas as mazelas do Brasil e eram associados ao atraso da sociedade. O jornal instigava a agressão e a expulsão dos portugueses do território brasileiro. As piadas sobre portugueses e a fama de serem "ignorantes" cresceram durante a República Velha, mas é provável que já existissem antes disso.[38] A imprensa brasileira do início do século XX contribuiu para criar diversos estereótipos negativos sobre os portugueses, sendo que algumas dessas imagens permanecem no imaginário brasileiro até hoje.

A

Imigração de declínio 1960-2000

A partir década de 1930, não apenas a imigração portuguesa no Brasil, mas todas de uma maneira geral caíram, e isso se deve ao Brasil já não mais precisar de imigrantes para abraçarem a agricultura e as fábricas, pois os nacionais já supriam a demanda. Nesta década, o presidente brasileiro Getúlio Vargas criou uma lei que controlava a entrada de imigrantes no Brasil Lei de Cotas de Imigração, à qual apenas os portugueses não estavam sujeitos. As várias décadas que durou o salazarismo contribuíram para uma grande vinda de portugueses para o Brasil. Essa imigração durou até meados da década de 1960.

Após a II Guerra Mundial, os portugueses foram os únicos que continuaram a chegar em grande número ao Brasil. Entre 1945 e 1959 ainda chegaram ao Brasil, cerca de 250 mil portugueses.

A imigração portuguesa em números

Regiões de origem dos imigrantes

Historicamente, os portugueses que partiam para o Brasil eram majoritariamente oriundos da região norte de Portugal. No século XVI, quase metade dos portugueses processados pela Inquisição em Pernambuco e na Bahia eram originários do Minho e 15% de Lisboa. Em 1801, em São Paulo, 45% dos homens portugueses provinham do Minho, 20% dos Açores e 16% de Lisboa. Analisando a origem dos comerciantes portugueses radicados em Minas Gerais no século XVIII, a historiadora Júnia Furtado constatou que 74,4% eram oriundos do Norte português. Iraci del Nero, ao levantar dados sobre a população portuguesa radicada em Vila Rica atual Ouro Preto, constatou que 68,1% provinha do Norte de Portugal. Analisando a população inventariada em Minas entre 1750 e 1779, Carla Almeida descobriu que 89% dos homens portugueses eram naturais das províncias do norte e 11% provenientes da região central do país e nenhum do sul. Além dos nortenhos, um fluxo notável de colonos provinham das ilhas atlânticas da Madeira e dos Açores.

Mais de um século e meio depois, no início do século XX, a imigração portuguesa para o Brasil continuava predominantemente oriunda do Norte português e adjacências, nomeadamente Trás-os-Montes, Minho, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Litoral e Estremadura, com oscilações de predominância entre estas regiões ao longo do tempo.

O Noroeste português foi o que mais forneceu imigrantes para o Brasil, em especial o Minho que corresponde aos actuais distritos de Braga e Viana do Castelo. O Sul de Portugal era dominado por latifúndios e grandes propriedades rurais. No Norte, por sua vez, predominavam pequenas propriedades agrícolas. Portanto, quem não adquiria um pedaço de terra estava fadado à pobreza. Sendo a região do Minho a mais densamente povoada de Portugal, formou com o Brasil-colônia - e sucessivamente com o Brasil Imperial e com a República - uma ampla rede de migrações. Sucessivas gerações de portugueses nascidos no Minho emigraram para o Brasil. Isso servia para se ter um equilíbrio entre a escassez de recursos, o crescimento constante da população e a falta de terras. Assim, famílias minhotas incentivavam a emigração períodica de seus filhos para o Brasil como forma de não sobrecarregar a economia baseada na pequena propriedade rural. Esses portugueses encaminhados para o Brasil tinham um perfil típico: do sexo masculino, bastante jovens, muitos deles quase crianças, enviados para o Brasil pelas mãos de algum parente ou padrinho. Além de ajudar a economia local, a emigração desses jovens para o Brasil também lhes era benéfica para os fazer escapar de "uma existência limitada por padrões de vida numa sociedade empobrecida, mesquinha e conservadora", nas palavras da historiadora Ana Silvia Scott.

Os dados sobre os imigrantes mostram que os trabalhadores agrícolas sem terra formavam o grupo mais numeroso de imigrantes que partiam para o Brasil, correspondendo a 50,3% e a 33,6% dos que chegaram nos anos de 1906 e 1913, respectivamente. Também foi significativa a emigração de proprietários rurais 10,6% em 1906, chegando a 31,7% em 1913. Também foi expressiva a migração de artesões portugueses, correspondendo a 15,8% em 1906 e a 13,8% em 1913. Curioso é que foram poucos os imigrantes que eram comerciantes antes de emigrar, somando apenas 1,7% em 1906 e 1,6% em 1913, embora depois que chegaram ao Brasil, muitos dos portugueses se tornaram comerciantes.

 Sexualidade e padrões de miscigenação

A imigração portuguesa para o Brasil é historicamente um fenômeno eminentemente masculino. Desde o início da colonização, são pouquíssimas as portuguesas que desembarcavam no Brasil. Em Portugal não havia escolas para meninas, apenas recolhimentos que visavam o ensino de afazeres domésticos. Na mentalidade portuguesa da Idade Moderna, a instrução feminina era considerada algo supérfluo e mesmo perigoso. Para eles, as mulheres só serviam como reprodutoras, como objeto de posse e de poder. Ao chegarem ao Brasil, os colonos portugueses se depararam com uma população indígena livre dos conceitos impostos pela Igreja Católica. Para as mulheres indígenas, o sexo era algo natural, longe de possuir a conotação de sujeira e pecado que existia na mentalidade europeia. Na descrição do jesuíta José de Anchieta, as indígenas "não se negavam a ninguém". Em um ambiente onde a Igreja ainda não tinha força, os colonos portugueses passaram a exercer uma "sexualidade desenfreada", unindo-se a várias mulheres indígenas ao mesmo tempo e gerando filhos mestiços. A situação fora dos padrões europeus horrorizava os jesuítas. Em carta ao rei de Portugal, Manuel da Nóbrega pedia ao monarca português que enviasse ao Brasil mulheres portuguesas, “muitas e quaisquer delas” e acrescentava: "Vossa Alteza mande muitas órfãs e se não houver muitas venham de mistura delas e quaisquer, porque são tão desejadas as mulheres brancas cá, que quaisquer farão cá muito bem a terra".

Para o jesuíta Manuel da Nóbrega, até as prostitutas portuguesas eram bem-vindas no Brasil: "Se El-Rei determina povoar mais esta terra, é necessário que venham muitas mulheres órfãs e de toda qualidade até meretrizes, porque há aqui várias qualidades de homens; e os bons e os ricos casarão com as órfãs; e deste modo se evitarão pecados e aumentará a população no serviço de Deus" escreveu o religioso para o rei de Portugal. Aliás, a transferência de prostitutas portuguesas para o Brasil é historicamente documentada. No século XVIII, em São Paulo, "contanto que não sejam velhas e doentes e incapazes de poder se casar" se falava em atrair meretrizes do Reino para a região. Já no século XIX, autoridades lusas denunciavam o fluxo de mulheres portuguesas no Brasil, que muitas vezes vinham enganadas com promessa de trabalho e acabavam na prostituição

Para Nóbrega, a falta de mulheres brancas na colônia é que acarretava no comportamento sexual desregrado dos colonos. A Igreja tentava "moralizar" os costumes dos colonos e o rei pretendia aumentar a população "branca dominante". Além de enviar degredados à colônia para explorarem produtos que poderiam dar lucro para Portugal, o rei também enviou as tais mulheres portuguesas, que eram órfãs, ladras, prostitutas, assassinas, alcoólatras, entre outras. As que não fariam falta em Portugal. Neste contexto, pouco importava a procedência da mulher portuguesa. Não importava a condição social, moral ou econômica dela, pois bastava que fosse "branca" e produzisse filhos "portugueses" na colônia para ser considerada "superior" às mulheres índias e negras, no imaginário colonial.

O concubinato vai ser a regra durante todo o período colonial, e o matrimônio a exceção. A historiadora Júnia Furtado diz que os casamentos em igrejas só vão predominar no Brasil a partir do século XIX. Antes disso, as uniões consensuais eram a forma mais praticada de uniões de casais.Fato notável da sexualidade dos homens portugueses no Brasil colonial é que estes davam preferência em se casar com mulheres portuguesas. Como estas eram poucas, partiam para brasileiras de ascendência portuguesa. Isto não quer dizer que os portugueses não se casavam com mulheres pardas ou negras. Há vários registros de colonos portugueses que oficializavam suas uniões com mulheres de origem africana, enfrentando o preconceito da sociedade para assumir essa relação. Mas por razões culturais, demográficas e econômicas, as uniões interétnicas eram majoritariamente apenas consensuais, quando não eram apenas relações sexuais passageiras. A própria escravidão colocava a mulher escrava de origem africana numa condição de submissão em relação ao senhor, que muitas vezes a usava como objeto sexual.

Os dados sobre casamentos e uniões consensuais no Brasil colonial mostram que os homens brancos tendiam a casar com mulheres de ascendência portuguesa, enquanto que aqueles que apenas se uniam consensualmente a maioria dos casos tendiam a fazê-lo com mulheres de ascendência africana. Em um levantamento das uniões consensuais havidas na Comarca do Rio das Velhas, em Minas Gerais, entre 1727 e 1756, os números mostram que entre os concubinos, 92% eram homens brancos. Porém, das concubinas, 52,1% eram africanas, 35,1% crioulas negras brasileiras ou mestiças, e apenas 11,8% eram brancas. Havia, portanto, um nítido predomínio de concubinato envolvendo um homem branco 92% e uma mulher negra ou mulata 87,2%. Todavia, os dados sobre casamentos mostram um outro quadro. Analisando os matrimônios envolvendo homens portugueses em Borda do Campo Minas Gerais entre 1750 e 1760, encontrou-se que apenas 13,4% das cônjuges eram portuguesas. Todavia, as cônjuges brasileiras de sabida ascendência portuguesa somavam 40% das noivas, dando um total de 50,3% as noivas de origem portuguesa declarada. Estes dados mostram a tendência do colono português de se unir consensualmente a uma mulher de origem africana, e a se casar com mulher de origem portuguesa. Apesar da preferência em contrair matrimônio com mulheres portuguesas, a exiguidade de compatriotas compeliam os portugueses a se casarem com mulheres brasileiras, livres e brancas, ou com pardas e negras alforriadas, tanto que no início do século XIX, em São Paulo, 97% dos homens portugueses estavam casados com mulheres brasileiras. Defrontados com a escassez de mulheres portuguesas na colônia, é presumível que muitos portugueses optassem pelo celibato, pois em São Paulo, no mesmo período, 30% dos portugueses se encontravam nessa situação.

No Brasil colonial, os casamentos constituídos eram exclusivos de uma minoria. Nestes casos, havia a figura da sinhá esposa legítima que era frequentemente obrigada a conviver com os filhos ilegítimos do seu marido tidos com escravas. Para a maioria da população, a sociedade brasileira era predominantemente matriarcal, especialmente nas classes subalternas, sendo a mulher solteira, negras, mulatas e brancas empobrecidas, as chefes de família.

Após a independência do Brasil no século XIX, a sociedade brasileira já havia mudado parte de suas características. O concubinato, que antes predominava, passa a dar lugar aos casamentos na igreja. Na definição da historiadora Mary del Priore, "no século XIX, a sexualidade se dividiu. De um lado, o sexo legítimo da união legal. De outro, o sexo ilegítimo e clandestino das relações adúlteras e da prostituição que se desenvolvem com o crescimento das cidades". Isto não quer dizer que as uniões informais foram abolidas no Brasil, pois continuavam a existir de forma significativa. Entre 1906 e 1910, 12,5% dos filhos de mulheres brasileiras em São Paulo eram ilegítimos comparado a 3,5% dos filhos de imigrantes portuguesas. A imigração portuguesa não perdeu seu caráter masculino nos séculos XIX e XX. O Norte de Portugal na época era conhecido por ter o predomínio de mulheres exercendo atividades agrícolas tradicionais, pois muitos dos homens emigraram. As mulheres e as crianças portuguesas desembarcaram em maior número no Brasil quando alguma crise aflingia Portugal, como durante a epidemia de filoxera que destruiu temporariamente a indústria do vinho do Porto em meados do século XIX. A regra, porém, era de 80% de homens entre os imigrantes e uma porcentagem mais elevada de adultos.

Em suas práticas matrimoniais, os imigrantes portugueses no Brasil nos séculos XIX e XX mostraram-se particularmente inclinados para a endogamia, quando comparados a outros imigrantes europeus. Dos 22.030 homens e mulheres portugueses que casaram na cidade do Rio de Janeiro no período de dez anos de 1907 a 1916, 51% dos homens casaram com mulheres portuguesas — uma percentagem mais elevada do que a dos italianos ou dos espanhóis 50% e 47% dos quais, respectivamente, casaram com mulheres originárias do seu país. 84% das portuguesas casaram com homens portugueses, em comparação com 64% das mulheres italianas e 52% das mulheres espanholas que casaram com homens da sua nacionalidade. Essa alta endogomia acontecia mesmo sendo o número de mulheres portuguesas bem mais baixo do que o número de homens. Tal endogamia pode ser explicada pela chegada constante de novos imigrantes, ou pela pobreza inicial desses portugueses, gerando desprezo da população brasileira, o que afastava as possibilidades de casamento entre os dois grupos. No decorrer do século XX, essa endogamia caiu e o casamento envolvendo um cônjuge português e o outro brasileiro cresceu gradualmente, passando então a predominar.

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 As mulheres portuguesas no Brasil

Nos primeiros séculos de colonização houve uma verdadeira escassez de mulheres brancas na colônia. Isso se deve ao caráter migratório aventureiro dos colonos portugueses, que buscavam enriquecimento rápido, pensando num breve retorno a Portugal. Isso desestimulava um padrão migratório familiar. Para diminuir a falta de mulheres brancas foram levantadas duas soluções: o envio de mulheres condenadas a cumprir pena de degredo no Brasil e de órfãs desprovidas de dote para a colônia. Uma terceira opção seria o envio de “mulheres erradas” para o Brasil, ou seja, de prostitutas portuguesas.  Quanto à presença de prostitutas portuguesas no Brasil, não há dados numéricos disponíveis. Quanto às órfãs, na legislação portuguesa, era uma pessoa que havia perdido o pai, pois a perda da mãe não acarretava nessa situação. O número de órfãs disponíveis não era suficiente e isso se refletia no pedido do jesuíta Manuel da Nóbrega para que o rei enviasse qualquer tipo de mulher, mesmo as “erradas”. Para o jesuíta, essas mulheres mudariam de vida por meio do casamento. A falta de mulheres brancas empurrava os colonos para relações com mulheres indígenas e africanas, ameaçando a “limpeza de sangue” tão almejada naquela sociedade.

Um estudo mostrou que as órfãs do recolhimento do Castelo, em Lisboa, eram mandadas para possessões ultramarinas onde havia escassez de mulheres portuguesas (Índia e Brasil). Elas chegavam acompanhando o governador geral, ou seja, de três em três anos. Para o Brasil não viajavam mais que duas ou três de cada vez, o que era claramente insuficiente. Num registro de 21 mulheres que chegaram à Bahia, todas já estavam casadas, e as idades variavam de 18 a 80 anos. Não chegavam apenas portuguesas: uma era espanhola de Toledo, uma cigana da Galiza Espanha e outra mulher de Arzila, no Marrocos. Sete delas eram de Lisboa e cinco do Alentejo. Não se sabe ao certo se essas mulheres já chegavam casadas ao Brasil ou se contraíram matrimônio na colônia. O que se sabe é que essas mulheres brancas eram disputadas fervorosamente pelos homens, devido à sua escassez na colônia.

A contribuição das órfãs para o aumento da população brasileira foi, sem dúvida, menor do que a contribuição das mulheres que chegavam acompanhadas dos seus homens ao Brasil, sejam esposas ou concubinas. As que chegavam sozinhas eram normalmente as degredadas, forçosamente exiladas na colônia. As degredadas chegavam para cumprir penas aplicadas pela justiça secular por crimes que haviam cometido, enquanto outras eram vítimas da Inquisição, que também condenava os “culpados” com o degredo. O século XVII foi marcado pela chegada constante de “visionárias”, acusadas de feitiçaria, que eram sentenciadas ao exílio na colônia. Nem todas permaneceram no Brasil, parte regressando a Portugal após os cinco anos de pena de degredo.

A mulher no Brasil colonial vivia uma condição subalterna, herança de tradições já cristalizadas. Tanto a legislação portuguesa quanto as práticas sociais acentuaram o caráter subalterno da mulher. As mulheres brancas viviam reclusas dentro de casa, raramente saíam à rua e, quando o faziam, deviam cobrir o rosto com véus e os pés com a barra da saia. De acordo com o padrão dominante, a mulher virtuosa apenas poderia sair de casa em situações específicas: para ser batizada, frequentar missas, casar e ser enterrada. Isso contribuía para os relatos sobre a mulher portuguesa no Brasil colonial: precocemente envelhecida, gorda, cercada de mucamas, tratada com sadismo e descontando sua fúria sobre as escravas.

No século XVIII, em Salvador, Mariana e Vila Rica as mulheres frequentavam a missa no final da madrugada para não serem vistas pelos homens. Muitas eram mandadas para conventos e recolhimentos femininos, o que causava desconforto nas autoridades, uma vez que a escassez de mulheres brancas na colônia era ainda mais agravada pelo fato de muitas tomarem o caminho religioso. O governador de Minas Gerais, Lourenço de Almeida, reclamou em 1731: “Suponho que toda mulher no Brasil será freira”.  De fato, um dos raros momentos em que as mulheres podiam comandar suas casas se dava na viuzez: em muitas casos, enviuvando a mulher com filhos menores, cabia a ela a direção da propriedade rural e o futuro da família.

Por outro lado, as mulheres pobres, livres ou escravas, estavam muito mais expostas na sociedade. Essas compunham a maioria da população colonial, embora os estudos históricos tenham sempre focado na vida das mulheres da elite.  As mulheres comuns eram domésticas, roceiras, costureiras, cozinheiras, feiticeiras, lavadeiras, prostitutas etc. O Brasil colonial, mergulhado em valores hierárquicos e patriarcais, delegava à mulher uma condição inferior dentro da sociedade. À mulher rica era destinada a reclusão dentro de casa e, à mulher pobre ou escrava, o trabalho pesado e os abusos sexuais.

Após a independência, a mulher portuguesa que desembarcava no Brasil, geralmente pobre, se empregava como criada nos serviços domésticos. O censo de 1872 mostrou que 129.816 escravas estavam ocupadas no serviço doméstico, portanto para as portuguesas apenas sobravam as casas onde se dava preferência à contratação de criadas brancas. Frequentemente os textos da época faziam referência implícita à prostituição de portuguesas no Brasil.

O início do século XX foi um momento que representou uma reviravolta nas características da imigração portuguesa ao Brasil, uma vez que as mulheres passaram a representar uma parcela considerável dos imigrantes. Dos portugueses que desembarcaram no porto de Santos entre 1908 e 1936, as mulheres representavam 32% do total, indicando uma grande migração familiar nesse período. A legislação portuguesa dificultava a migração de pessoas do sexo feminino, uma vez que exigia a emissão de passaporte e as mulheres dependiam da autorização dos pais ou do marido para imigrar. Até a década de 1890, o contingente feminino entre os imigrantes sempre foi muito pequeno, vindo a crescer rapidamente a partir dessa década. Antes disso, eram quase sempre os homens que emigravam, deixando muitas vezes suas esposas em Portugal, que passavam a ser incumbidas de cuidar dos filhos e de todo o trabalho produtivo. Os seus maridos frequentemente constituíam uma nova família no Brasil, fazendo delas “viúvas de vivos”.

A partir da década de 1890, verifica-se uma mudança no comportamento migratório português. As mulheres, que antes ficavam para trás, passaram a acompanhar seus homens na viagem migratória. Assim, a migração familiar e feminina portuguesa cresceu 41% entre 1891 e 1899 e 36% entre 1910 e 1919. Essas mulheres dividiam com seus maridos pequenos negócios, como padarias, bares e quitandas, trabalhavam como operárias, lavadeiras, costureiras, em áreas completamente diferentes das quais exerciam em suas aldeias de origem, muitas vezes tendo que trabalhar em jornada dupla para poder sobreviver e vencer os desafios no novo país de acolhimento.

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Identidade luso-brasileira 

Os portugueses constituíram uma das populações mais significativas na criação do Brasil. No entanto, a proximidade entre ambas as culturas torna relativamente fácil a integração de portugueses no Brasil. Somando-se a isto o corte, a nível cultural, efectuado com a ex-metrópole após a independência do Brasil a cultura portuguesa seria diminuída em prol do nascimento e desenvolvimento da cultura brasileira, em 1822, muitos descendentes de portugueses no Brasil, ou luso-brasileiros, não têm grande contacto com a cultura de Portugal, porque a cultura brasileira é uma continuidade da portugalidade nos trópicos ao contrário do que se sucede com outros grupos, como os nipo-brasileiros ou ítalo-brasileiros, que sentem ainda grande ligação com a terra de origem.

Devido à falta de organização das organizações luso-brasileiros, não há estimativas sobre o número de descendentes de imigrantes portugueses no Brasil disponíveis. Porém, se se embazar no número de descendentes de imigrantes italianos, que chegaram ao Brasil em número quase igual aos portugueses, chega-se a 25 milhões.

É notório, porém, que há 25 milhões de luso-brasileiros descendentes dos cerca de 1,5 milhão de portugueses que chegaram ao Brasil após 1850. Muitos outros milhões de brasileiros possuem origens portuguesas que remontam aos centenas de milhares de portugueses vindos do reino de Portugal que se fixaram no Brasil desde o século XVI, quando este constituía-se em uma colônia do império português ver Brasil colônia. Estes últimos, em sua grande maioria, sabem muito pouco sobre suas origens.

Moram no Brasil aproximadamente 700.000  pessoas com nacionalidade portuguesa. Esta população imigrou para o Brasil, na sua maioria, entre 1930 e 1960. Hoje em dia, e cada vez mais, se nota um aumento significativo de portugueses que compram propriedades no Brasil, sobretudo no nordeste brasileiro. Estes portugueses dedicam-se sobretudo ao turismo.

Quantos brasileiros possuem ascendência portuguesa?

Não existem números concretos sobre o número de brasileiros com ascendência portuguesa. Dada a antiguidade da imigração portuguesa para o Brasil - remontante ao século XVI -, seria impossível obter um número exato. Muitos brasileiros de origem portuguesa desconhecem suas origens pelo fato de estarem enraizados no Brasil há gerações e se consideram apenas como sendo brasileiros. Órgãos oficiais estimam, no entanto, que a população luso-descendente direta no Brasil orbita em torno de 5 milhões de pessoas.

Em 1872, havia no Brasil 3,7 milhões de pessoas brancas. Por fatores históricos, quase a totalidade dessa população era de origem portuguesa, tendo em vista que a imigração maciça de outros cidadãos europeus para o Brasil italianos, principalmente só começou após o ano de 1875. A população parda ou seja, mestiça de português com africano e índio era de 4,1 milhões de pessoas e os negros totalizavam 1,9 milhões. Desta forma, viviam no Brasil, na década de 1870, 80% de pessoas com alguma ascendência portuguesa, entre portugueses, luso-brasileiros e mestiços.

No século XIX e por grande parte do século XX, uma nova onda de imigrantes portugueses chegou ao Brasil. Entre 1881 e 1991, mais de 1,5 milhão de pessoas imigraram de Portugal para o Brasil. Em 1906, por exemplo, viviam 133.393 portugueses na cidade do Rio de Janeiro, compondo 16% da população. O Rio é, ainda hoje, considerada a "maior cidade portuguesa" fora de Portugal.

Estudos genéticos também confirmam a forte influência racial portuguesa nos brasileiros. De acordo com uma pesquisa, pelo menos metade de todos os cromossomos Y da população brasileira é oriunda de portugueses. Os negros brasileiros possuem, em média, 48% de genes não-africanos, provavelmente oriundos de antepassados vindos de Portugal.

FONTE WIKIPÉDIA

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